Crianças são cheias de energia e passam a maior parte do dia correndo ao invés de caminhar. Para ajudar a gastar essa “bateria” de forma saudável, muitos pais matriculam os filhos em escolas de esporte e passam a estimular sua participação em competições. Se por um lado a prática de atividade física é saudável e deve ser incentivada, por outro é preciso atenção para evitar a superexposição da turminha aos exercícios de alto impacto, que podem vir a provocar lesões sérias em ossos, tendões, músculos e articulações.

“Não existe fórmula: o sinal de alerta é o surgimento de dores articulares e nos ossos que surgem com a atividade física e melhoram com o repouso e duram vários dias, retornando sempre durante ou após praticar determinada atividade. Nessa situação é muito importante consultar um ortopedista. Criança que esteja sempre exausta em casa pode ser indicativo de exercícios em excesso”, orienta Marcos Britto da Silva, professor coordenador da Liga de Ortopedia e Medicina Esportiva dos alunos de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Profissional de Educação Física especialista em Psicomotricidade e pesquisador, Sidirley de Jesus Barreto (CREF 000131-G/SC) afirma que tanto o baixo impacto quanto o alto são ruins à saúde óssea da criança. “Então, talvez seja válida a máxima chinesa: o Tao, o caminho do meio.” Só que andar ou correr em terrenos que não sejam planos também facilitam as lesões em qualquer idade. Residente no Vale do Itajaí (SC), Barreto conta que a alta frequência de fraturas por estresse em crianças e pré-adolescentes submetidos à sobrecargas de alta intensidade fez com que fosse incluída no terceiro semestre do curso de Educação Física disciplinas como “Pedagogia do Esporte” e “Crescimento, desenvolvimento e aprendizagem motora”, além de manter a “Psicomotricidade”, para poder conscientizar pais e educadores dos perigos do alto impacto nesse público.

O risco de uma superexposição ao impacto em ambientes como clubes e escolas de esporte existe, principalmente com crianças com melhores resultados competitivos, que costumam ser mais exigidas a se superarem. Dessa forma, o acompanhamento de profissionais de educação física habilitados a trabalhar com criança é fundamental em qualquer prática de atividade física para prevenir problemas por excesso de impacto. Para Barreto, é preciso ensinar até as gestantes a estimularem as crianças precocemente, propiciar uma educação psicomotora adequada, dar educação poliesportiva, seguir o perfil personalógico do indivíduo e nunca queimar etapas na hora de desenvolver os talentos esportivos da turminha. Aliás, Britto da Silva explica que o conceito de criança é bastante variável na medicina, podendo ir de 12 a 15 anos: “nas meninas, o surgimento do broto mamário marca o início da adolescência, enquanto que para os meninos é a troca de voz ou o surgimento dos pelos púbicos”.

Exercícios de alto impacto infantil: cuidando do problema

“Excesso de impacto se corrige com reprogramação das atividades”, defende Britto da Silva. Dessa forma, caso o profissional de Educação Física perceba que a criança está se queixando de dor, mancando ou anda desanimada, deve conversar com o pequeno e orientar os pais a procurar a ajuda de um ortopedista, além de modificar a programação de exercícios para melhorar o uso do impacto nesses alunos.

O uso de suplementos de cálcio é descartado pelo professor da UFRJ, que ressalta que “o osso mais fraco nas crianças que não ingerem leite adequadamente as torna mais propensas a lesões”.

Sidirley de Jesus Barreto indica o trabalho multidisciplinar como uma forma de chegar ao tratamento adequado. Afinal, a combinação de experiências do médico, do nutricionista e do profissional de educação física leva a um tratamento mais completo e benéfico à criança. Ele propõe ainda a “musculação dos neurônios” por parte dos profissionais de educação física: “temos que zelar pela integridade dos benefícios de qualquer idade, principalmente das crianças, o que requer estudo e troca constante com os demais profissionais da saúde”.

Mesmo fazendo atividades de alto impacto, criança deve brincar

As atividades de impacto, como as corridas nas brincadeiras, são saudáveis e necessárias para o desenvolvimento ósseo, muscular e psicomotor e não precisam ser encaradas com a severidade de uma atividade física. Também não se deve extinguir o impacto do dia a dia da turminha porque “brincadeiras com movimentação articular são benéficas para o desenvolvimento da criança. Elas têm que brincar, correr, mas também precisam descansar. É muito importante que durmam de nove a dez horas por dia, porque crescemos durante o sono depois de um dia de atividades físicas. Para a criança ficar mais alta, precisa correr e dormir várias horas, além de ingerir cerca de três copos de leite diariamente, tomar sol, ingerir proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e sais minerais em todas as refeições”, ensina o professor da UFRJ.

Barreto concorda e lembra que estudos indicam que a densidade óssea depende de movimentos de torções e certo impacto. Portanto a estimulação motora é fundamental para a saúde óssea: “não parece ser de bom alvitre a ausência ou a baixa estimulação (aos impactos). Há indícios inclusive de que uma adequada estimulação na infância pode trazer excelentes benefícios na prevenção da osteoporose. Todavia, o excesso pode ser prejudicial em qualquer idade. O overtraining prova que fazer mais exercício do que o corpo é capaz de se recuperar é maléfico também”.

As crianças que passam muito tempo na frente do vídeo game e do computador acabam menos expostas ao impacto, o que também é prejudicial. Além disso, a falta de movimentação colabora com a obesidade infantil, que tem crescido de forma alarmante e leva a outras enfermidades crônicas e preocupantes, como diabetes e até mesmo hipertensão. Ambos os especialistas consultados concordam, todavia, que o caminho é sem volta, já que a tendência é vivermos cada vez mais num mundo tecnológico. “Creio que ainda é cedo para dimensionar realmente essa constelação de problemas que o uso dos jogos eletrônicos vai trazer para as crianças, mas acho que temos que buscar uma saída”, conclui Barreto.

Fonte: Portal EF

26 de fevereiro de 2013

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